Bell, o telefone e o <em>e-mail</em>
Há bocado, pela manhã, ao sair do hotel, em Edimburgo, para tomar o transporte que nos havia de levar ao local da nossa reunião - no segundo e último dia desta e logo a seguir, pela tarde, haveria de apanhar o avião para Lisboa (os aviões, primeiro para Londres e depois o Londres-Lisboa) -, lá vi outra vez a casa onde tinha nascido o inventor do telefone, Alexander Graham Bell, com uma placa metálica a assinalá-lo. Aliás, o local da minha reunião era a sede da BT (British Telecom, a herdeira das telecomunicações do Post Office) ela próprio designada por Centro Alexander Graham Bell. Assim mesmo, sempre escrito o seu nome por completo…
Pelos vistos, os britânicos, e muito particularmente os escoceses, não esquecem aquele seu compatriota. Um compatriota cuja família emigrou e para os EUA. Um compatriota que desenvolveu as suas actividades, inicialmente, na esteira das actividades paternas. Actividades próximas da medicina e da reabilitação. Ou, dito de outra maneira, actividades de um professor dedicado às especiais necessidades de pessoas surdo-mudas ou, à maneira actual, de pessoas portadoras de deficiência auditiva. Alexander Graham Bell, também estudioso da electricidade, do electromagnetismo, um provocador de tão grande onda de choque…
Uma onda de choque causada pelo implantar do telefone nas sociedades, o que, se não serviu para nada, foi-o só, e não é nada pouco, no caso dos surdo-mudos - como, com frequência, é bem relembrado. Esse mesmo telefone - o fixo e o móvel - que, se bem que omnipresente nas instalações do Centro Alexander Graham Bell, onde foi disponibilizada uma sala para a nossa reunião, dava menos na vista por aquele open space fora que os ecrãs de computadores alinhados aos quatro a quatro nas bancadas onde os trabalhadores realizavam as suas funções. A Internet, a web, mas, sobretudo, a comunicação por e-mail a pontificarem por ali.
Pois é. Ironias à parte. Depois do telefone, apenas o e-mail teve pedalada para adquirir um estatuto de meio de comunicação interpessoal de massas. O que significa um palavreado tão fora da nossa experiência de fala do nosso dia a dia? Que, enquanto os meios de comunicação de massa, os media (será que ainda devia escrever esta palavra em cursivo para assinalar não se tratar este de um vocábulo da língua portuguesa? - os brasileiros escrevem mídia…) dizem respeito à comunicação unilateral de um (ou uns, que controlam o fluxo informativo) para todos os outros, os interpessoais permitem o bilateralismo entre todos os que queiram.
(Bilateralismo, quero dizer, neste caso, a conversa dois a dois, ou mesmo a conferência entre vários, podendo funcionar a comunicação simetricamente nos dois sentidos; uma participação mais democrática como muitos gostam dizer, mesmo [talvez não] sabendo que o conceito de Democracia é politico e respeita a «algo» diferente. Mas pelo menos não se trata de meio de comunicação, difusão, de massas - que também são necessários e têm o seu lugar na galáxia de meios de comunicação. E, como escrevi acima, bilateralismo para os que queiram, já agora também se diz para os que possam, que disponham de meios para o poder.)
E o e-mail permite (eu sei que já tenho aludido ao que segue, mas não é mau, penso, ruminar sobre isso, ainda por cima depois de ter estado algumas dezenas de horas tão perto de tal berço) aos excluídos do telefone, aos alunos de Graham Bell, entrarem em conversações também através de meios de comunicação eléctricos (digamos, electrónicos, para empregar a terminologia da mais corrente legislação da União Europeia). Tal, à distância - o que o correio já permitia -, mas no caso do e-mail com uma presteza dialogal antes desconhecida - destreza que as mensagens escritas em papel, e portanto a transportar fisicamente, não admitiam.
Presteza dialogal também possível - Não esquecer! - por intermediação da linguagem gestual, quer em presença quer à distância, por meio do videotelefone. Mas é uma situação diferente, pois os outros quase todos, que comunicam normalmente pela voz, em princípio não se vão dedicar a aprender e utilizar a linguagem gestual. Por isso, como a escrita é o código generalizado à grande maioria, daí a sua enorme importância para os deficientes auditivos (mas - e como há sempre uma conta de ganhos e perdas - não o é para os deficientes visuais, que se encontravam nas suas sete quintas com a invenção e expansão do telefone…)
Ai, se Alexander Graham Bell de repente ressuscitasse, qual Bela Adormecida. Teria ele que ser previamente educado, como já sugeriu Gonzalo Torrente Ballester a propósito daquela, mandando-o nós, para o efeito, à Escola?
Pelos vistos, os britânicos, e muito particularmente os escoceses, não esquecem aquele seu compatriota. Um compatriota cuja família emigrou e para os EUA. Um compatriota que desenvolveu as suas actividades, inicialmente, na esteira das actividades paternas. Actividades próximas da medicina e da reabilitação. Ou, dito de outra maneira, actividades de um professor dedicado às especiais necessidades de pessoas surdo-mudas ou, à maneira actual, de pessoas portadoras de deficiência auditiva. Alexander Graham Bell, também estudioso da electricidade, do electromagnetismo, um provocador de tão grande onda de choque…
Uma onda de choque causada pelo implantar do telefone nas sociedades, o que, se não serviu para nada, foi-o só, e não é nada pouco, no caso dos surdo-mudos - como, com frequência, é bem relembrado. Esse mesmo telefone - o fixo e o móvel - que, se bem que omnipresente nas instalações do Centro Alexander Graham Bell, onde foi disponibilizada uma sala para a nossa reunião, dava menos na vista por aquele open space fora que os ecrãs de computadores alinhados aos quatro a quatro nas bancadas onde os trabalhadores realizavam as suas funções. A Internet, a web, mas, sobretudo, a comunicação por e-mail a pontificarem por ali.
Pois é. Ironias à parte. Depois do telefone, apenas o e-mail teve pedalada para adquirir um estatuto de meio de comunicação interpessoal de massas. O que significa um palavreado tão fora da nossa experiência de fala do nosso dia a dia? Que, enquanto os meios de comunicação de massa, os media (será que ainda devia escrever esta palavra em cursivo para assinalar não se tratar este de um vocábulo da língua portuguesa? - os brasileiros escrevem mídia…) dizem respeito à comunicação unilateral de um (ou uns, que controlam o fluxo informativo) para todos os outros, os interpessoais permitem o bilateralismo entre todos os que queiram.
(Bilateralismo, quero dizer, neste caso, a conversa dois a dois, ou mesmo a conferência entre vários, podendo funcionar a comunicação simetricamente nos dois sentidos; uma participação mais democrática como muitos gostam dizer, mesmo [talvez não] sabendo que o conceito de Democracia é politico e respeita a «algo» diferente. Mas pelo menos não se trata de meio de comunicação, difusão, de massas - que também são necessários e têm o seu lugar na galáxia de meios de comunicação. E, como escrevi acima, bilateralismo para os que queiram, já agora também se diz para os que possam, que disponham de meios para o poder.)
E o e-mail permite (eu sei que já tenho aludido ao que segue, mas não é mau, penso, ruminar sobre isso, ainda por cima depois de ter estado algumas dezenas de horas tão perto de tal berço) aos excluídos do telefone, aos alunos de Graham Bell, entrarem em conversações também através de meios de comunicação eléctricos (digamos, electrónicos, para empregar a terminologia da mais corrente legislação da União Europeia). Tal, à distância - o que o correio já permitia -, mas no caso do e-mail com uma presteza dialogal antes desconhecida - destreza que as mensagens escritas em papel, e portanto a transportar fisicamente, não admitiam.
Presteza dialogal também possível - Não esquecer! - por intermediação da linguagem gestual, quer em presença quer à distância, por meio do videotelefone. Mas é uma situação diferente, pois os outros quase todos, que comunicam normalmente pela voz, em princípio não se vão dedicar a aprender e utilizar a linguagem gestual. Por isso, como a escrita é o código generalizado à grande maioria, daí a sua enorme importância para os deficientes auditivos (mas - e como há sempre uma conta de ganhos e perdas - não o é para os deficientes visuais, que se encontravam nas suas sete quintas com a invenção e expansão do telefone…)
Ai, se Alexander Graham Bell de repente ressuscitasse, qual Bela Adormecida. Teria ele que ser previamente educado, como já sugeriu Gonzalo Torrente Ballester a propósito daquela, mandando-o nós, para o efeito, à Escola?